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Luiz Ruffato, em 2013. (Foto: Adriana Vichi/Domínio Público)

Em uma entrevista recente ao site de jornalismo DW Brasil, o escritor Luiz Ruffato disserta que a sociedade brasileira é uma árvore sem raízes e desprovida de perspectiva sobre a sua própria história. Num trecho mais interessante, diz que o brasileiro, depois de viver uma sucessão de tiranias em seu percurso, se acostumou a governos autoritários e que até nutre uma preferência por ditaduras como solução fácil para as crises. Não é difícil ter a ousadia de discordar de tudo isso. Por mais que a ignorância viceje pelo país, a história a nossa pretensa nação é tão simplória que qualquer ignorante é capaz de intuir a sua essência, mesmo que desconheça os detalhes dialéticos.

Sim, possuímos raízes e são raízes profundas. Estamos enraizados na manutenção da desigualdade que mantém uma elite preguiçosa, ostentatória e rentista. O eco histórico das nossas raízes se reflete nas favelas, nos menores de rua, nos desabrigados, nos baixos salários, nas reformas econômicas que esmagam a base para sustentar os caules apodrecidos que sustentam umas poucas flores que desabrocham sobre a miséria, sobre a desgraça alheia. Revoltas populares sempre foram dissipadas com exemplar virulência por aqui. Acredite, Ruffato, nossas raízes são fortes, profundas e quase irremovíveis.

Nossa história é um loop infinito que sempre recai no tema da corrupção, a corrupção usada como pretexto para retomar a mesma história de injustiças sociais que imaginávamos estar superando. Talvez, sejamos o único país que usa o mote do combate à corrupção para destituir governos populares e renovar a opressão contra os desfavorecidos. Precisamos aceitar que o nosso histórico é medíocre e carente de complexidade. Não temos história, temos uma bula.

Durante essas três décadas de redemocratização, após o regime militar, pelo menos em uma delas nos encontramos na possibilidade de debater a inclusão, o acesso à educação, as cotas, os direitos das minorias, a erradicação do preconceito, todos os assuntos adormecidos ou camuflados pelos anos de ditadura. O que aconteceu? Nossas raízes falaram mais alto, mostraram sua predominância, recolocaram-se no poder. Como fizeram isso? Com armas? Não.

Nem, ao menos, precisaram de criatividade. Usaram a mesma palavra simples, capaz de ser assimilada, compreendida e repudiada pelo mais tosco dos cidadãos até o mais bem instruído deles: a corrupção. A diferença do atual método, em relação aos retrocessos anteriores, foi enfeitar o pavão com a legitimidade jurídica das togas de juízes e os ternos bem cortados dos promotores.

Pronto. Da noite para o dia voltamos a ser o país dos economistas, dos índices da Bolsa de Valores, das notas impostas por bancos estrangeiros, do combate à inflação, das jogatinas políticas. Tudo o mais morreu ou ficou restrito à verborragia inerte das Redes Sociais.

Ruffato, nós temos raízes, elas se alimentam de cadáveres anunciados e insepultos que sustentam meia dúzia de flores penduradas nos galhos mais altos. Nossa maior violência é desprezar a vida para preservar números e indicadores financeiros.

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Alexandre Coslei é jornalista e escritor.

Crédito: Notícias do Acre/Creative Commons 2.5 Brasil

O Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra — 20 de novembro — ainda causa desconforto e críticas por uma parcela da sociedade que reluta em dar voz para a população negra. Essa postura tornou-se algo freqüente sempre que os negros buscam a afirmação da própria identidade étnica, porém, visando a superação desses obstáculos, algumas reflexões são indispensáveis e nos ajudam a ampliar os horizontes para um debate promissor. Em primeiro lugar abordarei sobre a importância em manter viva a memória de Zumbi, e depois discorrerei sobre a Consciência Negra.

Os neoliberais, defensores da meritocracia e contrários às demandas das minorias, ao tentarem impor suas concepções de mundo, costumeiramente, recorrem a exemplos que ocorrem nos EUA. Ironicamente, faço uma comparação com os americanos, já que os neoliberais não revelam todas as realidades que lá acontecem.

Não é nenhuma novidade o racismo explícito sofrido pelos afro-americanos. A violência que os brancos os submetem não resulta em conseqüências punitivas na maioria dos casos; sob a ótica da justiça americana, observamos que é a cor dos indivíduos que determina o julgamento. Os afro-americanos são 13,3% da população e apesar de toda a opressão, o afro-americano Martin Luther King (1929-1968), um dos principais líderes do Movimento dos Direitos Civis e ganhador do Prêmio Nobel da Paz, é homenageado anualmente com direito a feriado nacional e inúmeras atividades que relembram sua trajetória.

No período escravagista brasileiro, dominado pelos brancos europeus durante quase quatro séculos, reinou a subjugação e a violência contra a população negra. Zumbi, nascido nesse período, exatamente em 1655, conquistou o posto de principal liderança do quilombo dos Palmares, localizado na Serra da Barriga — Pernambuco. Palmares foi sinônimo de liberdade, resistência e esperança; homens e mulheres escravizados que fugiam das fazendas, conseguiam reconstruir a humanidade violada pelas chibatas.

O quilombo sofreu inúmeros ataques a mando da coroa portuguesa que estava sedenta para capturar os fugitivos, mas com muita resistência por parte dos quilombolas eram derrotados. Entretanto, no dia 20 de novembro de 1695, Zumbi foi capturado e assassinado. Pelo legado de resistência contra os escravistas e a construção de uma vida digna ao seu povo, Zumbi dos Palmares tornou-se símbolo de combate ao racismo. Entretanto, como a sociedade brasileira ainda não se emancipou totalmente da colonização, pois mantém hospedado na mente os opressores escravistas, não reconhecem a comemoração de Zumbi dos Palmares tão importante ao ponto de torná-la feriado nacional. Os estados e municípios têm a autonomia para instituírem ponto facultativo ou feriado.

Eis a ironia, nos EUA com uma população negra menor e o racismo explícito, Martin Luther King teve o justo reconhecimento; no Brasil, com mais da metade da população negra — segundo os dados do IBGE, os negros e pardos somam 54% — e o discurso da democracia racial, como difundiu o sociólogo Gilberto Freyre, não dão a Zumbi dos Palmares o legítimo reconhecimento. Conclusão: somos também um país racista, à brasileira; apenas usamos um verniz de democracia racial.

Diante dessas questões é urgente defender a Consciência Negra, pois a falta de compreensão histórica, aliada a mentalidade colonizadora, permite o menosprezo pelas exigências dos negros no país. Está muito claro que há uma produção de privilégios aos brancos que acaba fomentando na subjetividade a negação das demandas raciais, não permitindo que os lugares em que estão alocados sejam desconstruídos.

Está claro que abolição da escravatura não pôs fim ao racismo, ela manteve aberta a construção subjetiva de hierarquização dos indivíduos e isso acontece de forma estrutural. Se olharmos atentamente a nossa volta veremos que as posições sociais dos negros são de subalternidade. Existe uma quase ausência de pessoas negras atuando como juristas, professores universitários, engenheiros, médicos, entre outras posições sociais de status relevante.

Noutro sentido, constatamos a população negra ocupando cargos nos quais os rendimentos mensais não suprem às demandas essenciais para a sobrevivência, produzindo o alargamento da desigualdade econômica entre negros e brancos. Com o poder econômico inexpressivo, a população negra não consegue ter acesso à educação e saúde de qualidades, acabam fixando residências em áreas periféricas onde a violência é abundante.

O reflexo social é devastador. De acordo com o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias – Infopen, divulgado em 2016, há um encarceramento sistemático que atinge a maioria do povo negro, são mais de 60% encarcerados. O Atlas da Violência 2017 apontou que a cada 100 pessoas mortas no Brasil, 71 são negras; números que deixam clara a existência de genocídio da população negra.

Diante dessa exposição, a Consciência Negra têm o propósito de continuar desnudando o racismo entranhado na sociedade, a despeito das mudanças que ocorreram nos últimos anos, e produzir uma consciência de igualdade em direitos. No dia 20 de novembro, e não somente, convidamos a sociedade para pensarmos sobre a situação da população negra e como cada indivíduo pode contribuir para o combate ao racismo estrutural; o nosso problema não é somente comportamental, porém as denúncias em casos de preconceito e discriminação — quando constatados – devem ocorrer imediatamente. Devemos exigir políticas públicas e de Estado que construam um ambiente democrático, desconstruindo toda a situação de subdesenvolvimento social em que vive a população negra.

No entanto, isso somente ocorrerá se a parte interessada — nós, negros e negras — participarmos na elaboração dessas políticas, porque sob a condução da classe dominante os privilégios continuaram intocáveis.

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Ricardo Corrêa é especialista em Educação Superior.

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REFERÊNCIA
BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. MJ divulga novo relatório sobre população carcerária brasileira. Brasília. Disponível em: <http://www.justica.gov.br/radio/mj-divulga-novo-relatorio-sobre-populacao-carceraria-brasileira>. Acesso em: 15 nov. 2017

Dilma Rousseff durante ato em defesa da democracia no teatro dos bancários em Brasilia. (Foto Lula Marques/Agência PT)

A cineasta brasiliense Maria Augusta Ramos vai receber do Fundo Mundial de Cinema o equivalente a cem mil reais, para terminar seu filme “O Processo”, um documentário sobre o processo do impeachment de Dilma Rousseff.

O Fundo Mundial de Cinema é uma iniciativa conjunta do Festival Internacional de Cinema de Berlim, Berlinale, com o governo alemão e o Instituto Goethe.

Paralelamente, Maria Augusta Ramos tinha obtido o equivalente a 30 mil reais numa campanha de levantamento de fundos (pela Kickante) para montar “O Processo”, depois de mais de 450 horas de filmagens na Câmara, Senado, durante o impeachment, incluindo entrevistas e cenas com Dilma Rousseff e o ex-ministro da Justiça José Cardoso. A cineasta não quis tentar financiamento do filme pela Lei Rouanet.

Durante o processo do impeachment, Maria Augusta Ramos tinha afirmado estar pagando do seu próprio bolso as despesas com as filmagens em Brasília.

Documentarista, com um estilo próprio, influenciado por seu professor holandês Johan van de Keuken, ela não pretende fazer ficção, sentindo-se mais atraída pela realidade que busca retratar nos seus filmes.

Seu novo documentário, “O Processo”, com finalização prevista para 2019, será talvez um dos primeiros a ser projetado sobre a destituição da primeira presidente mulher no Brasil. Outros cineastas, Anna Muylaert, Petra Costa e Douglas Duarte, também acompanharam a crise política e documentaram a queda da presidente.O cineasta braziliense Adirley Queiroz foi o primeiro a concluir seu filme, que se transformou numa ficção, “Era uma vez em Brasília”, menção honrosa no Festival de Locarno.

Sem poder fugir à uma tomada de posição, por ter acompanhado o dia a dia do processo da queda de Dilma Rousseff, a cineasta considera o impeachment como um golpe parlamentar da direita.

Maria Augusta Ramos, nasceu em Brasília em 1964, estudou Musicologia em Paris e Londres, formando-se depois em cinema na Holanda, onde viveu. Já conquistou diversos prêmios nacionais e internacionais com seus documentários curtas e longas-metragens. Em 2006, criou a produtora Nofoco Filmes.

Alguns dos filmes por ela dirigidos: “Seca”, “Futuro Junho”, “Morro dos Prazeres”, “Juízo, Justiça”, “Desi, Brasília”, um dia em fevereiro.

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e RFI.

Trabalhar na imprensa “nanica” não é das coisas mais fáceis. Trabalhar na imprensa de modo geral não é fácil, nunca foi, mas quem está na dita: “grande imprensa”, às vezes, sente o deslumbramento proveniente dos holofotes e esquece que o jornalismo historicamente é uma profissão de proletários.

Certa vez, o blogueiro e professor de jornalismo da PUC, Leonardo Sakamoto, disse que, em tempos de passaralhos, jornalistas só se lembram de que pertencem à classe trabalhadora quando são mandados embora, tamanha é a desconexão entre profissão e sentimento organizacional. Talvez, ele esteja certo.

Em diversas coberturas para o jornalismo de bairro, área que costumo atuar com frequência e em outras editorias também, já topei com colegas de diversos meios, principalmente canais de TV que não se comportam como jornalistas, escavadores da notícia como deveriam ser.

Quase sempre, profissionais da TV se limitam a executar uma peça tragicômica diante dos olhos de todos, mas que apenas alguns possuem bom senso para entender.

O vídeo exige aparato cênico, é um mise en scene com direito à maquiagem, figurino e papéis, tudo deve estar em seu lugar em uma elaboração meticulosa. Não são poucos aqueles repórteres que com o ego inflamado buscam aparecer mais do que a fonte entrevistada e no fim distribuem seus autógrafos ao redor da multidão.

Longe de querer traçar um modelo de conduta para colegas, mas sim analisar criticamente o fazer jornalístico, que em sua gênese e receita não mudam de acordo com os meios, mas entender que é necessário se fazer jornalismo com a mesma responsabilidade e seriedade em todas as suas plataformas.

Portanto, sem devaneios ou estrelismos, o jornalista é aquele que intermedeia a notícia, reporta o que acontece e como acontece para o público.

Não é necessário ter vivido os tempos áureos do jornalismo dos anos 50 ou 60 para entender que esta é uma profissão de ilustres desconhecidos, gente que em sua maior parte ganha pouco e luta para prestar serviço ao leitor, telespectador, ouvinte ou internauta. Jornalistas estão mais para operários da notícia do que para estrelas do showbiz.

Embora tal expressão possa soar demasiadamente antiga para se referir a jornalistas, esses deveriam voltar a se enxergar como trabalhadores da notícia, pois somente essa consciência os fará fugir da armadilha que enclausura muitos em um personagem que não lhes cabem, o de celebridades da mídia.

Capa do livro “A Sociedade do Espetáculo”, de Guy Debord (1967). (Crédito: A Sociedade do Espetáculo/Divulgação)

Quando o filósofo francês Guy Debord fez menção ao o que chamou de “A Sociedade do Espetáculo”, dizia que tudo no sistema capitalista se tornaria espetáculo, dentre essas coisas estaria o jornalismo e o excesso imagético também. E nesse aspecto ele acertou formidavelmente, pois o que vemos diariamente pela tela da TV é o sinal mais honesto dessa profecia: entretenimento engessado disfarçado de informação conduzido por protagonistas afetados.

Um retorno ao real sentido do que é a profissão é urgente, não que o passado tenha sido perfeito, mas porque é lá que reside a essência da atividade. E não há nada de romântico nessa argumentação, afinal, assumir ou acusar alguém de romantismo por dizer isto é admitir a derrota do verdadeiro papel da imprensa e de quem depende dela.

Trocando em miúdos, fica o pensamento de Sigmund Freud, “a razão pode falar baixo, mas nunca se cala”.

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Ronaldo Lages é jornalista, atua no jornalismo de bairro e é colaborador da Agência Mural de Jornalismo das Periferias, Portal Fórum e Megafonia.

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