Domingo, 24 Setembro 2017 14:56

A arte não é refúgio dos covardes

por Marco Aurélio Mello

Em momentos de agravamento do quadro político e econômico, que tem implicações graves na vida social brasileira, pergunto: seria a arte uma forma de alienação?

Não, ao contrário, a arte é o refúgio mais seguro.

Uma caverna com pouca luz, onde comida e água estão racionadas, mas onde encontramos o calor necessário enquanto lidamos com a angústia da nossa espera.

Não tenho vergonha de dizer que não tenho respostas para dar, nem forças para lutar contra um inimigo que avança com força e não mostrou por enquanto fraquezas, nem qual é o flanco a atacar.

Somos soldados de uma causa ideológica, guerrilheiros sem armas de longo alcance, nem de destruição em massa.

Nossa arma é a palavra, o verbo.

Nosso papel é construir relações humanas sólidas e de confiança e esperar até nosso inimigo fraquejar.

E ele vai fraquejar, porque a ambição imediatista que ele carrega é maior do que a visão dele pode alcançar.

Cedo ou tarde ele estará cego e muito pesado para se locomover.

É triste e ao mesmo tempo sintomático que estejamos discutindo emancipação, depois de tantos avanços sociais das últimas décadas.

O sentido político do termo, pesquiso, está em Marx, num ensaio de 1844 sobre a “questão judaica”.

Na filosofia, emancipar-se é alcançar direitos e está ligado à luta de minorias (classes) por igualdade de oportunidades e de acesso.

Sem capacidade de emancipação, uso o tempo livre para amar, cultivar a paz, ler, refletir, ir ao cinema, ao teatro e a shows de música.

Sinto que as manifestações e os protestos recentes são inócuos e só servem para promover um agravamento da violência promovida pelo Estado, na forma de repressão.

Assim como eu, muitos não saem mais às ruas.

Não somos covardes, como alardeiam aqueles que gritam e empunham faixas e bandeiras.

Temos um sentimento difuso, intuitivo, que nos diz que ocupar as ruas agora não tem serventia alguma.

Os atuais governantes não alcançaram o poder pelo voto, portanto, não serão sensíveis aos apelos da “opinião pública”, da “voz das ruas”.

Eles não ouvirão os gritos do povo. Eles reprimirão o povo. E parte deste povo, aquele que prefere a ordem, vai aplaudir o uso da força e a manutenção da ordem contra seus pares.

A arte vai nos redimir, vai nos ajudar a reconquistar aquilo que se havia perdido.

Mas vamos precisar de tempo, paciência, esperança e coragem para resistir.

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