Segunda, 12 Fevereiro 2018 19:20

Globo foi ao rato da Beija Flor, mas não ao tucano da Tuiuti

A emissora fez uma descrição minuciosa do desfile da Beija Flor, justamente o que faltou no caso da Tuiuti

Da Redação

O telespectador que assistiu ao desfile da Beija Flor, na madrugada desta segunda-feira, embalado por um belíssimo samba, notou que os encarregados de descrevê-lo na TV Globo fizeram com a escola de Nilópolis o que deixaram de fazer no domingo, com a Paraíso do Tuiuti.

O enredo desta era claro: Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão? Uma pergunta que deveria conduzir à resposta que a emissora não deu, ao menos em sua plenitude.

Uma das formas de escravidão moderna a escola explicitou de maneira absolutamente cristalina: a perda dos direitos trabalhistas no Brasil, fruto de um golpe promovido por patos e paneleiros. Estava tudo lá, para quem quisesse ver.

Já o enredo da Beija Flor, Monstro é aquele que não sabe amar, baseado na figura de Frankenstein, requeria explicações que a Globo deu desde o início do desfile, com ênfase em argumentos que às vezes refletiam muito mais as prioridades dos próprios comentadores.

Logo na primeira intervenção, um dos repórteres deixou bem claro, bem ao lado de um carro alegórico: “Os ratos tomaram conta da Petrobrás, segundo a visão da Beija Flor aqui na avenida. É a crítica social, a crítica política no desfile da Beija Flor”, sublinhou.

Nas arquibancadas, uma entrevista ecoou: “Eu achei uma crítica em favor do povo brasileiro, que tá tão sofrido”, respondeu uma senhora, ao que o repórter acrescentou: “Isso aqui é bonito: samba, cultura e consciência”.

Mais adiante, noutra intervenção: “É uma crítica social forte que a Beija Flor está trazendo para a avenida”.

Um dos comentaristas lembrou que a escola denunciava também a “carga tributária que é uma das maiores do mundo”. O “peso dos impostos nos ombros de todos nós”, segundo um narrador, não seria compensado por serviços à altura.

Ora, se a Beija Flor estava ali para denunciar injustiças, seria necessário ao observador — honesto ou ao menos bem informado — lembrar que a carga tributária no Brasil incide justamente sobre os mais pobres.

Seria demais esperar que fosse dito que os irmãos Marinho pagam relativamente ao seu patrimônio menos impostos que os moradores de Nilópolis.

Mais adiante, a interpretação dada por um comentarista global ao carro alegórico que trazia o prédio da Petrobrás foi de que as favelas seriam “consequência dessa corrupção”.

Ora, talvez a explicação dada pela própria Tuiuti faça muito mais sentido: os descendentes de negros libertos, abandonados depois da escravidão, é que formam o grande contingente populacional das favelas, hoje submetidos a novas formas de escravidão.

E, se a corrupção é um grande flagelo, o que dizer da imensa desigualdade de renda?

Mas, é Carnaval! Cobrar explicações sociólogicas da Globo sobre cada fantasia ou carro alegórico seria um absurdo.

Cabe notar, do ponto-de-vista estritamente jornalístico, que a Globo se esforçou para explicar o enredo da Beija Flor de uma maneira que não fez com a Paraíso do Tuiuti — com entrevistas e comentários.

Observações in loco de repórteres sobre os carros alegóricos da Beija Flor não foram feitas a respeito da Tuiuti, razão pela qual não houve registro específico dos paneleiros, dos patos da Fiesp, nem do tucano engaiolado, outra fina ironia que a Globo sonegou a seus telespectadores.

Como tudo isso ficou de fora não só na transmissão, mas também no resumo do desfile e em todos os telejornais da Globo, sabemos que não foi por acaso.

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