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O primeiro voo da América Latina aconteceu em Osasco

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O inventor franco-brasileiro Dimitri Sensaud de Lavaud realizou, em Osasco, o primeiro voo da América Latina

A historiografia aeronáutica costuma creditar ao mexicano Alberto Braniff o primeiro voo na América Latina, em 8 de janeiro de 1910, sobre a planície de La Hacienda de Balbuena, próximo à Cidade do México.

A bordo de uma aeronave Voisin adquirida na França, Braniff percorreu cerca de 1,5 km a uma velocidade de 56 km/he uma altura estimada de 25 m. Para os padrões da época, uma conquista memorável, digna de ser bem noticiada por jornais do mundo todo.

No entanto, um personagem quase ignorado merece o devido crédito. Na véspera de Braniff, no dia 7 de janeiro, em Osasco, então bairro da capital paulista, o engenheiro francês – que mais tarde se tornaria brasileiro – Dimitri Sensaud de Lavaud chegou a realizar o primeiro voo da América Latina.

O jornal O Estado de São Paulo registrou o segundo voo de Dimitri de Lavaud em 1911

Feito menos conhecido, mas também registrado pelos jornais da época. Realizado quatro anos depois de Santos Dumont sobrevoar o campo de Bagatelle, em Paris, seu voo acabou esquecido por infortúnios do destino e pela falta de memória histórica no Brasil.

Esse episódio sensacional, com toques de ousadia, engenhosidade e, posteriormente, tragédia pessoal, foi resgatado por dedicados pesquisadores no documentário “O piloto invisível”, produzido e dirigido por Tamer de Oliveira. Em 2010, ano do centenário da façanha, “1910 – O primeiro voo do Brasil”, de Salvador Nogueira e Suzana Alexandria, foi publicado. Mesmo assim, o pioneiro franco-brasileiro ainda carece de reconhecimento.

Basta dizer que sua história está registrada no Museu de Osasco, instalado no antigo Chalé Brícola, onde morava sua família, mas poucos parecem se importar. A réplica de seu avião instalada no museu acabou sendo roubada. O aparelho, o DSL (suas iniciais) “São Paulo”, sobrevive em uma réplica guardada nas dependências do antigo Museu TAM, em São Carlos, interior de São Paulo.

O pouso desajeitado do DSL resultou em dano Voando por 105 metros

O voo foi sensacional, mas menos importante que a capacidade técnica e inventividade de seu autor. Foram apenas 105 metros – menos que um campo de futebol – percorridos em 6 segundos e 18 décimos a uma altura entre três e quatro metros acima do local onde hoje corre a Avenida dos Autonomistas. Santos Dumont voou 220 metros.

O pouso do DSL foi desajeitado, resultando em danos. Como não tinha amortecedores, o trem de pouso acabou cedendo, provavelmente devido a algumas mudanças de última hora. “Dimitri construiu um avião em São Paulo em um ano, enquanto Blériot levou seis meses para fazer o mesmo na França”, diz o diretor Tamer de Oliveira.

O que ele fez antes e depois também foi extraordinário. Com 1.200 invenções patenteadas, suas ideias ainda fazem parte do cotidiano moderno (veja quadro).

Dimitri Sensaud de Lavaud projetou e construiu seu avião em um ano

Desde a virada do século, quando tinha pouco mais de 18 anos, o jovem Dimitri estudava a arte de voar, recebendo periódicos do Aeroclube de France enviados por parentes.

Nascido em Valladolid, na Espanha, em 1882, era filho do empreendedor barão francês Evaristhe Sensaud de Lavaud (no Brasil, Comandante Lavaud) e da russa Alexandrina Bognadoff. Após um período na Turquia, a família mudou-se para o Brasil, onde o pai abriu uma olaria em Osasco, em 1885.

Dimitri ficou na Europa por até 15 anos, estudando em um internato onde aprendeu francês e latim (em casa falava russo com a mãe).

Precoce conhecedor de máquinas, no Brasil trabalhou ao lado do pai e de dezenas de operários, em geral imigrantes italianos. Mesmo sem falar português nos primeiros tempos, ele entendia bem o idioma.

Em 1903, casou-se com a descendente de franceses Bertha Rachoud. Em 1916, adquiriu a cidadania brasileira, porém, em busca de oportunidades, foi para o Canadá e trabalhou nos Estados Unidos, mudando-se definitivamente para a França em 1920.

Mais inventor do que aviador

A diferença entre De Lavaud e os pioneiros de seu tempo está justamente aí. Enquanto alguns, como Braniff e Roland Garros, buscavam fama e aventura, ele investia em soluções que também lhe traziam fortuna. Seu espírito estava mais próximo do empreendedorismo de Blériot e dos irmãos Wright.

Enquanto Braniff adquiriu um avião Voisin na França, De Lavaud estudou os projetos de Blériot e Farman para criar seu próprio avião. Algo extraordinário para as condições do Brasil na época.

Projetado por ele e fabricado no país, seu motor seis cilindros estrela de 45 cv era um produto genuinamente brasileiro.

“Certamente ele foi muito mais um inventor do que um aviador. Mesmo na questão aeronáutica, desconfio que o que mais atraiu foi o problema de voar e não a vontade de voar”, diz Salvador Nogueira, jornalista científico e um dos autores de “O Primeiro Voo do Brasil”.

O DSL era um avião bem diferente dos que viriam a ser construídos anos depois, daí a dificuldade em pilotá-lo. No lugar dos ailerons, a asa se movia em torno de um eixo, enquanto o leme era fixo. Um desafio.

“Os sistemas de comando eram falhos, mas ele ainda conseguiu. O monoplano de Blériot que ele testou [tempos depois] tinha sistemas de controle diferentes”, conta Pierre Camps, sobrinho-neto do pioneiro e responsável pela construção das réplicas do DSL. “Como a barra do trem estava batendo na asa, ele deve ter cortado, o que fez com que ela quebrasse na hora do pouso”, estima.

Reconhecido na época como o primeiro a voar na América Latina, Dimitri Sensaud de Lavaud decidiu encarar os céus novamente, mesmo diante da reprovação da esposa.

Com o acidente que matou o piloto italiano Julio Piccolo durante o ataque aéreo promovido pelo recém-criado Aeroclube de São Paulo, em 24 de dezembro de 1910, De Lavaud comprou seu Blériot para ajudar a viúva.

Dez das principais patentes de Dimitri de Lavaud Em 1912, ele patenteou uma máquina para usinagem de tubos metálicos centrifugados sem emendas. Diz a lenda que descobriu o processo quando tentava reconstruir um de seus aviões Modernizou, em 1921, um registrador topográfico Inventou, em 1927, o primeiro sistema de transmissão automática para automóveis, ganhando o Prêmio Montyon de Engenharia da Academia de Ciências de Paris Adaptou uma turbina para gás para automóveis Em 1930, criou um mecanismo automático para hélices de passo variável que acabou sendo usado em caças da Luftwaffe. Ele desenvolveu o automóvel STL (para provar a viabilidade de sua transmissão automática). O STL foi exibido no Salão Automóvel de Paris de 1930. Sua patente foi vendida para a Citroën em 1934 e instalada no famoso Traction Avant 7Projetou um diferencial para tração independente usado em blindados leves 8×8 Estudou uma primeira turbina de fluxo axial em um período em que os pesquisadores trabalhavam com turbinas centrífugas menos eficientes Seu motor-foguete inspirou, em parte , as “bombas voadoras” nazistas V-1 Sua última invenção, em 1946, foi uma embreagem elétrica
Fim dos voos

O aeronauta e inventor levou o avião para Osasco, onde fez algumas modificações. Seu voo, em 19 de fevereiro de 1911, teve venda de passagens e tudo. A bordo do modelo reformado, equipado com novo motor e rebatizado de Blériot de Lavaud Nº 2, ele decolou do Parque Antarctica, onde hoje fica a Arena do Palmeiras.

Uma pane no motor fez com que o aparelho caísse em um bosque de bambus no final da pista. Mesmo sem se machucar, bastou para Bertha, que o obrigou a parar. Uma tentativa anterior já havia falhado. A partir de então, o primeiro homem a voar na América Latina cuidaria, com grande sucesso, apenas dos negócios e de suas invenções.

Diante da preocupação da esposa com a vida de aeronauta, De Lavaud desistiu de voar. É provável que o mundo tenha ganho com isso. Dono de mais de 1.200 patentes registradas na Europa e nos Estados Unidos, a evolução das ideias desse francês faz parte do dia a dia.

O esquecimento que se abateu sobre sua fuga tem explicações plausíveis para Salvador Nogueira. De Lavaud abandonou a aviação no Brasil sem deixar “herdeiros intelectuais” para seguir em frente. Outro fator seria a figura de Santos Dumont, uma referência insuperável. “É importante lembrar que Santos Dumont é um produto francês, mais do que brasileiro. Se ele estivesse no Brasil, jamais teria realizado suas façanhas”, acredita.

percalços históricos

Pena que o destino não seria tão gentil com ele no final, com a ruína e desconfiança de sua atitude para com os nazistas durante a ocupação da França na Segunda Guerra Mundial. A ocupação nazista da França entre 1940 e 1944 foi um período difícil para os franceses em geral e para Dimitri Sensaud de Lavaud em particular.

Esquema de mecanismo automático para hélices de passo variável

Houve quem optasse por resistir, enquanto outros colaboraram com os invasores, mas a maioria não teve opções. Essa parece ter sido a ruína pessoal do inventor franco-brasileiro.

Preso por uma temporada em 1940 pelos nazistas, que queriam seu mecanismo automático para hélices de passo variável, voltou para a prisão, em Lyon, diante da suspeita de ter sabotado os planos. Seu diferencial para veículos 8×8 também foi roubado pelos alemães, assim como estudos para turbinas de fluxo axial e motores-foguete.

Como De Lavaud tinha dupla cidadania desde 1916, o governo brasileiro tentou libertá-lo por meio dos esforços do embaixador Souza Dantas. Após a libertação da França pelos Aliados, aos 63 anos, voltou à prisão sob suspeita de ter colaborado com os inimigos.

Inocente em 1946, ele ganhou a liberdade com problemas de saúde. Empobrecido e com o coração partido, ele morreu em 25 de abril de 1947, aos 64 anos. Um triste fim para um inventor milionário que 21 anos antes havia se tornado Cavaleiro de…

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PlanetaOsasco.com – Via observatório CMIO

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